CASA NA LUA – por  Ana Miranda

A Missão Ártemis vai instalar uma estação na órbita da Lua e uma base em seu chão. Vi um projeto da paisagem lunar com edifícios arredondados, gêmeos, construídos com tijolos de regolito, poeira lunar, para proteger os habitantes contra a radiação; uma paisagem noturna com prédios parecendo cestas emborcadas, antenas do chão com luzes azuis e vermelhas. No céu, imensa, a Terra azul. Incrível! Lá estaremos, olhando a nós mesmos. Começamos, afinal, a mudança.

Procuraram o melhor lugar na Lua, com acesso a energia solar, boa comunicação com a Terra, próximo a regiões sombrias onde há depósitos de gelo para se fabricar oxigênio, água, propelentes. Escolheram o Polo Sul lunar, iluminado, adequado a pousos. Vão ser testados veículos, vestimentas, central elétrica, o uso da água gelada, para se estabelecer uma presença humana duradoura na Lua, e talvez de animais, como Laika, a rafeira das ruas de Moscou, que viajou no Sputinik. Os astronautas começam passando uma semana por lá, depois um mês, dois… até ser possível o assentamento permanente. Empresas pressionam, elas têm interesse na exploração de recursos da Lua, convertendo o programa em uma jornada colonialista que vai beneficiar bilionários e agências de turismo espacial.

O foguete Ártemis leva a cápsula Órion, que vai orbitar a Lua antes de cair no Oceano Pacífico. Órion já realizou uma viagem de teste levando bonecos com medidores de radiação, e deu certo. Custou muito suor e lágrimas, disse o diretor da Nasa, mas vai permitir voos à Lua por décadas. Em 2024, Ártemis 2 vai tripulada: uma mulher, um afrodescendente, um canadense e um americano. Mas apenas os tripulantes de Ártemis 3 vão pisar o solo lunar. Veremos a primeira mulher a caminhar nessa Lua tão feminina. Na mitologia grega, Ártemis, a deusa virgem de olhos cinza-prateados é a irmã gêmea de Apolo, nome da nave que pousou na Lua em 1969; e apaixonada pelo caçador Órion, a quem ela mesma matou com uma flechada, iludida pelo irmão enciumado. Ártemis é a deusa da Lua, da caça, da castidade, do parto e dos animais selvagens.

Acho que ainda viverei para ver movimento de naves, e plataformas, antenas, observatórios, vagões, tremonhas sobre trilhos a percorrer toda a Lua, radiotelescópios, laboratórios, edifícios, plantios. Módulos ancorando nas estações. Verei astronautas em caminhadas espaciais, como no fabuloso filme de Cuarón, “Gravidade”.

Os russos também vão construir bases na Lua. A China enviou três astronautas para a estação Tiangong, Palácio Celestial, que está sendo construída, e vai explorar o lado oculto da Lua. Uma nave particular japonesa vai pousar na Lua por estes dias, levando o rover Rashid, dos Emirados Árabes. A quem pertence o território da Lua? Haverá disputas. A Lua ficará superpovoada, poluída, como nossas metrópoles. E mais uma vez teremos de sair para nova casa, talvez em Marte, ou mais longe. E a Lua em ruínas voltará a ser de Abaamgui, o deus da Lua guarani, dos sapos de três patas, da rana lunar portadora de água, da lebre dos presságios e de nosso são Jorge, montado no cavalo branco, enfrentando o dragão.

ANA MIRANDA, extraído do site do jornal O Povo de 8 de abril de 2023


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