À PROCURA DA PAZ ENTRE A RÚSSIA E A UCRÂNIA

Como escreve Matias Spektor em seu artigo “O custo da autonomia” do Globo de hoje, “sem exceção, todos os países em desenvolvimento estão adotando alguma variante da diplomacia do não alinhamento. De Índia a México, de Turquia a Indonésia, a aspiração dominante dessas nações é evitar compromissos fixos com as grandes potência do dia – Estados Unidos, China e Rússia. Com Lula, o Brasil também aderiu à tendência”.

“Seu objetivo – prossegue Spektor – é proteger o país da competição virulenta entre os mais poderosos. O não alinhamento é postura de quem entende que o futuro é perigoso e que a conta da agressividade entre os fortes é paga também pelos fracos (….) Acontece que a condução exitosa de uma política externa de não alinhamento é uma proeza.”

Que é uma proeza estamos vendo agora, diante da furiosa reação da direita brasileira, e da grande imprensa – inclusive de vozes que se mostravam, há pouco, tão respeitáveis – diante das palavras de Lula sobre o tema.

Diz o articulista que Lula teria ficado empolgado com a reação internacional inicialmente favorável e teria “dobrado a aposta”, ao propor a criação de um grupo multilateral de países em desenvolvimento encarregado de criar as condições para um cessar-fogo e, com isso meteu os pés pelas mãos.

A despeito da admiração que tenho pelo professor da FGV,  discordo – pelo menos em parte – dessa dedução. Parece-me que a ideia de criar um “Grupo de paz” surgiu na cabeça de Lula, logo nos primórdios. Pelo que entendi, o Presidente brasileiro nunca pretendeu ser um árbitro individual na sua tentativa de fazer cessar o conflito para que as partes conversassem entre si.

Ocorreram, a meu ver, algumas coincidências inesperadas que deram a impressão equivocada de que Lula estaria a favor da agressão de Putin o qual, sabidamente, é malquisto pela esquerda moderada, tendência ideológica que define o próprio Lula. A vinda do Chanceler Lavrov ao Brasil, na mesma ocasião, propiciou uma  visão enganadora de alinhamento. Ao lado disso, a viagem triunfal à China fez o mundo  ocidental – com todo o seu aparato de poder e comunicação –  vislumbrar uma adesão ao bloco sino-soviético tradicionalmente antagônico, desde os tempos da Guerra Fria.

Por último, deve ter causado temor, na zona do dólar,  a nossa provável inclusão na área de influência do Yuan, transformando a posição independente e soberana do Brasil em aparente hostilidade aos Estados Unidos e à Europa ocidental.

Não será fácil reverter essa posição.

Creio que a diplomacia brasileira não irá se alinhar ao poder militar americano face aos riscos evidentes dessa decisão, que acabaria implicando a remessa de armamentos e de combatentes para um cenário de Guerra.Por outro lado, o dólar – ao qual o nosso Banco Central é atrelado – faz mal ao real brasileiro e nos obriga a manter juros que poderão inviabilizar o governo.


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