PARA LÁ DE MARRAQUEXE – por Ana Miranda

O Marrocos se aproximava misterioso nos vultos de mulheres cobertas por véus, com uma leveza e força milenares. Sentei-me na sala de espera do aeroporto, sentindo o prazer de observar pessoas de mundos que eu não conhecia. Avistei uma família marroquina, mulheres islâmicas de cabelos cobertos, e uma menina pequena, talvez tivesse vivido apenas quatro anos. Ela saltitava em plena felicidade, alegre como um animalzinho livre, inocente, as duas tranças passarinhavam junto com o sorriso de dentes separados, e os olhos provavam que a cor negra é cheia de luz. Encantei-me, até que a perdi de vista.

Ao portão, os muçulmanos já eram a maior parte dos viajantes, e a menina feliz veio por acaso sentar-se defronte a mim, interessada em outra criança ao lado da mãe, uma jovem sarracena. Passei o tempo a admirar a menina com sua pureza, sua blusa modesta em um tom forte de pétalas de rosa. Mas, de repente seu rosto se crispou, como se ela sentisse uma dor forte e secreta; não chorava, mas expressava a mágoa, e vi que sua perna estava presa. Fiz sinal para a moça ao seu lado, que não entendia, até que gritei em francês: A perna da menina! E a jovem levantou-se, conseguiu separar as conchas das poltronas, libertou a menina que saltou nos braços da mãe e se foram.

No momento de partirmos, veio a menina com a orientação materna para agradecer a jovem muçulmana, a criança lhe disse educadas palavras. Mas, nesse instante seu olhar fugiu e ela me olhou. Transcendeu a idade, a compreensão do mundo, e me olhou, ela sabia e se recordava de meu grito; em seu olhar corajoso, ela foi maior que sua cultura e educação religiosa, acabara de experimentar a dor e o mundo que podia inesperadamente machucar a bem-aventurança, mas olhou a mulher estrangeira sem véus, e vi que além de iluminada ela era independente em seu íntimo, íntegra em sua essência. Essas são pequenas coisas que nos acontecem nas viagens.

Marraquexe era puro fascínio, vi coisas maravilhosas, palácios deslumbrantes, jardins secretos, épocas e geometrias, a medina murada no tempo do império berbere, o minarete mouro da mesquita Cutubia, labirintos intermináveis onde o comércio era uma arte e um jogo; vi a grande praça Jemaa el-Fnaa onde a multidão se movia entre encantadores de serpentes, macacos vestidos; vi paredes recobertas de filigranas talhadas a mão, mosaicos, tetos abobadados, animais esculpidos em mármore branco, luminárias metálicas perfuradas; pátios com chafarizes, perfis agudos que ao pôr-do-sol pareciam um sonho no deserto, vi os adereços berberes de uma beleza extraordinária, o intensíssimo azul de Majorelle, a casa luxuosa de Saint-Laurent, vestidos de veludo; no ar o canto penetrante dos almuadens; vi a periferia miserável que abrigava curtumes fétidos, tinas de tingimento do pano, lugares onde se teciam djellabas, tiravam ouro da lama. Tudo era vida jorrando em fontes, um passado histórico esmagador. Mas, finda a viagem, refeito o caminho para outra realidade onde sinos católicos ressoam a cada meia hora anunciando o escoar do tempo, sei que a lembrança mais preciosa e inesquecível da viagem serão os olhos da menina, seu olhar foi a pedra preciosa que eu trouxe do Marrocos.

ANA MIRANDA, transcrito do jornal O Povo de 13 de maio de 2023


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