UM CAMINHAR POR LIVROS – Lilia Moritz Schwarcz

Boa tarde a todos e todas.

Eu gostaria de agradecer à Procuradoria Geral do Estado do Rio de Janeiro pelo convite e por essa acolhida tão especial. Uma honra. Gostaria de agradecer ao Paulo Augusto Franco (ao Guto), meu colega, interlocutor, amigo pela alegria de partilhar essa mesa de abertura da exposição que celebra esse intérprete da nossa nacionalidade: Raimundo Faoro.

Estamos falando desse intelectual múltiplo: sociólogo, historiador, cientista político, escritor e jurista que foi, aliás, presidente da Ordem dos Advogados do Brasil, de 1977 a 1979, e membro da Academia Brasileira de Letras. Faoro foi sobretudo uma voz combativa em prol dos nossos direitos nos momentos mais difíceis da nossa democracia. “Ajudou a empurrar a história para o lado certo”, conforme escreveu o Ministro Barroso, e nos ensinou como é necessário combater esses dois inimigos da República: a corrupção e o patrimonialismo, a mistura de esferas públicas com privadas.

Mas meu papel aqui é abrir os debates e falar dessa a exposição entre livros. O objetivo de Guto é justamente refazer uma trajetória de Faoro por meio dos livros. Recuperar os livros que Faoro leu e lhe inspiraram a alma, a tal ponto de ocuparem um lugar cativo nos diários que o escritor legou. Um lugar, sem dúvida, iniciático.

Todo diário, é uma literatura de si, no sentido de apresentar uma versão pessoal, e que ultrapassa as fronteiras porosas entre realidade e ficção.

Nesse sentido, todo diário é uma ficção da realidade. Uma ficção de si. Famoso é o Diário de d. Pedro II, que, aliás, constitui-se numa excelente peça de “ficção oficial”. Esse é também um caso exemplar de outros limites, entre o que é público e o que é privado. Nesse caso, tudo é público. A guisa de comparação, eu lembraria aqui, também, de outro diário; este escrito no limite: o Diário íntimo de Lima Barreto. Nele, o escritor negro obviamente “ficcionalizava” a própria vida. No seu diário por vezes escreveu o nome de seu personagem de “Cemitério dos vivos”: Vicente Mascarenhas. Já no romance, chegou a rascunhar seu próprio nome: escreveu e rasurou.

Quase oposto ao caso de Pedro II, Lima escrevia seu diário no hospício, onde o escritor se encontrava internado pela segunda vez, em 1918. Experimentava uma situação claramente de limite; de limite da escrita e limite de si, uma vez que anotou as dúvidas que tinha naquele local: “estarei eu sequestrado?”, perguntava ele. “Ou meu corpo é que está me traindo”, completaDe toda maneira, sabemos que escrever um diário é sempre uma “tomada de sentido”. Representa dar significado a uma vida e a um destino. Mas no gerúndio, pois o tempo é o da escrita contínua, no tempo …

Interessante também pensar por outro ângulo. Como o diário de Faoro, em especial, era feito de livros. Do registro dos livros que leu e selecionou guardar. Um diário pensado nesses termos, é quase uma biblioteca.

Aliás, intelectuais em geral se identificam pessoal e afetivamente às suas bibliotecas. E nações também.

Não passará desapercebido como a nossa Biblioteca Nacional, na época a Real Biblioteca, que chegou ao país em 1816, no contexto em que a família real andava residindo no Brasil. E acabou ficando por aqui e fazendo parte do tratado de independência.Por sinal, o valor dela significou quase a metade de uma conta que foi paga a Portugal em 1825, durante a realização e fechamento do Tratado de Aliança e Amizade. Esse é, pois, um ótimo exemplo de como livros sempre significaram formas de liberdade. Possuir a maior biblioteca das Américas, representava uma forma de marcar a recente autonomia; senão política ao menos simbólica.

O outro lado dessa história é aquele dos governos autoritários, que em geral querem os livros bem longe. Vários exemplos, retirados de diversas partes do mundo, e vigentes em diferentes períodos da história, apresentam, em comum, o fato de tomarem os livros como objetos a serem destruídos: queimados, recolhidos ou censurados.

A história mostra como livros e bibliotecas foram e estão sempre sendo destruídos, seja por motivos naturais, seja por conta da própria consciência instável, digamos assim, da humanidade. Essa é a história da biblioteca de Alexandria, que durante um século teve o mérito de aglutinar 700 mil volumes, que correspondiam a parte significativa do conhecimento disponível sobre a Grécia. Ardeu por conta de um incêndio criminoso. Também não foi obra do acaso os ingleses queimarem, em 1814, a Biblioteca do Congresso dos Estados Unidos, com seus 3000 livros. Algo semelhante ocorreu quando Monte Cassino foi bombardeada, durante a Segunda Guerra Mundial, perdendo-se boa parte do conhecimento acumulado sobre a Europa medieval. E não foi muito diferente a sina da Biblioteca Nacional do Camboja, que, atacada pelo Kmer Vermelho, teve 80% de seus livros desaparecidos, assim como foram assassinados 57 dos seus 60 bibliotecários.

Os pares lembrar e esquecer, guardar e destruir fazem parte indissociável dessa história de bibliotecas. Um bom exemplo é a queima de livros, que assume um lugar exemplar em nossa história, assim chamada, universal e que, pensada nesses termos, nada lembra à “civilização”. A inquisição espanhola, em 1499, incendiou 5000 manuscritos árabes na cidade de Granada. A “Sociedade nova-iorquina para a Supressão do Vício”, fundada em 1873 nos EUA, chegou a usar um desenho representando a queima de livros como símbolo para combater a imoralidade. Talvez o exemplo mais famoso tenha ocorrido em 1933, quando, logo após a subida de Adolf Hitler, foram queimados, em várias cidades da Alemanha, todos os livros considerados contrários ao sistema e aos valores nazistas. O evento virou ícone e exemplo para regimes opressores que procuram silenciar e censurar obras não coadunadas com esses governos. Durante o macarthismo, na década de 1950, várias bibliotecas dos EUA queimaram livros considerados comunistas. O mesmo fez a ditadura de Pinochet, no Chile, que em 1973 determinou o extermínio de livros como forma de censura.

Caso muito semelhante ocorreu em 1981, na Sri Lanka, quando forças policiais deram fim à biblioteca pública de Jaffna, que contava com 100.000 livros e documentos raros, boa parte deles pertencentes à minoria tâmeis. Durante a Guerra da Bósnia (1992-1995) arderam várias bibliotecas com o objetivo expresso de destruir a cultura muçulmana dominante no local.

Como se vê, a história das bibliotecas e dos livros – esse “caminhar com livros”, tema que nos une aqui – é tão antiga como pródiga nas destruições que protagonizou. Mesmo se pensarmos metaforicamente, toda a seleção de certos livros, implica no esquecimento de outros, e isso vale para refletirmos sobre a coleção que Raimundo Faoro organizou, no começo de sua trajetória, e ainda em Porto Alegre – período recortado pelo Guto.

Mas não estamos aqui não para falar da destruição de livros. Estamos aqui para mostrar o outro lado dessa história e relação; como um pensador, do porte de Raimundo Faoro, construiu uma vida tendo livros como sua companhia e tema de diário.

Dizem que quem tem um livro nunca anda só. Ao contrário eles acompanham uma vida, sobretudo a vida de intelectual. Eles alteram vidas também.

Permitam-me, nesse sentido, lembrar de mais um exemplo. O belo conto de Italo Calvino chamado “Um general na biblioteca”. Nele, o literato narra um estranho episódio que teria ocorrido na Panduria: “nação ilustre, onde uma suspeita insinuou-se um dia nas mentes dos oficiais superiores: a de que os livros contivessem opiniões contrárias ao prestígio militar”. A partir de uma série de investigações percebeu-se que esse hábito, tão difundido, era partilhado por grande quantidade de livros, modernos e antigos, pandurianos e estrangeiros. Frente a tal constatação – do perigo eminente dos livros –, o Estado-Maior nomeou uma comissão de inquérito para examinar a maior biblioteca da região. Os militares tomaram posse num dia chuvoso e os estudiosos que costumavam frequentar a instituição foram retirados; só ficou o senhor Crispino, um antigo bibliotecário local. A partir de então procedeu-se à divisão de tarefas, sendo que a cada tenente foi designado um ramo do saber. Mas como os militares não eram muito versados “em matéria bibliográfica”, tiveram que recorrer ao Crispino, enquanto procuravam desenvolver seu trabalho de censura. E logo a febre dos livros atingiu aos (pobres) militares. Fim da história, mas não tanto. Até hoje, vestidos à paisana, os militares destituídos são “vistos entrando na velha biblioteca, onde esperava por eles o senhor Crispino com seus livros”.

Hora de terminar. Faoro nos mostrou que uma das formas mais eficazes de lutarmos contra “os donos do poder”, e o autoritarismo, é acreditando na capacidade curativa e reveladora dos livros.

Na potência dos livros para fazerem pessoas e mudarem países.

Essa exposição celebra, pois, uma vida com os livros, daquele que nos legou livros tão fundamentais. Daquelas obras que, mais do que explicar um país, convertem-se com o tempo em retratos ¾ dele. Se tornam indissociáveis, um e outro. Um país e um livro!

Essa é assim uma exposição metalinguística. Reflexiva no seu melhor sentido. Conhecer a biblioteca de um pensador, ler em seu diário os livros que selecionou, significa reconhecer a importância dos processos de escrita e percursos de reflexão. E como escreveu Guimarães Rosa, outro grande escritor da nossa nacionalidade: “O significado a gente põe sentido é no caminho, no percurso que a gente faz”

O crítico palestino, Edward Said, em seu livro Beginnigs destacou a importância dos “começos”. Esses seriam tempos de experiência, momentos para lançar projetos e imaginar o futuro. A utopia que carrega essa exposição é trazer um intelectual como Raimundo Faoro a partir de “seus começos”, de seus primeiro de seus primeiros trajetos e percursos. Essa é uma bela mirada para entender esse intérprete do nosso tempo.

Boa exposição, muito obrigada

LILIA MORITZ SCHWARCZ, abertura da Exposição Raymundo Faro. Os anos e os livros de formação no Centro Cultural na PGE do Rio de Janeiro em 18.5.23


1 comentário até agora

  1. José neves maio 21, 2023 2:44 pm

    Maravilha! Parabéns à autora! Grande Faoro, nunca lembrado o suficiente!

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