POR QUE ESTAMOS FICANDO TÃO FASCISTAS?

Eu tinha um enorme orgulho em ser brasileiro, até que parte da sociedade civil da qual faço parte começou a ser bolsonarista. É verdade que Lula – que acabou de chamar Bolsonaro diretamente de fascista – está tentando, com dificuldade, reverter esse clima e fazer reviver o sentimento de esquerda no Brasil. Ainda assim, eu me pergunto: o que deu em nós para simpatizarmos tão radical e ostensivamente com o fascismo em nosso País?

Preocupado em definir o fascismo, para evitar  o emprego indevido da expressão, o professor Robert Paxton escreveu um livro precioso, “A anatomia do fascismo”, publicado no Brasil, em 2007, pela Editora Paz e Terra, em que ele conclui que o fascismo

tem que ser definido como uma forma de comportamento político marcada por uma preocupação obsessiva com a decadência e humilhação da comunidade, vista como vítima, e por cultos compensatórios da unidade, da energia e da pureza, nas quais um partido de base popular formado por militantes nacionalistas engajados, operando em cooperação desconfortável, mas eficaz, com as elites tradicionais, repudia as liberdades democráticas e passa a perseguir objetivos de limpeza étnica e expansão externa por meio de uma violência redentora e sem estar submetido a restrições éticas ou legais de qualquer natureza.”

O pior fascismo da História, até agora, foi o nazifascismo alemão, liderado por Hitler. Mas ele surgiu depois da Primeira Guerra Mundial e, portanto, foi “marcado por uma preocupação obsessiva com a decadência de humilhação da comunidade”, diferentemente do Brasil, que não foi derrotado em guerra alguma. Teríamos, contudo, uma preocupação obsessiva com a decadência e humilhação da comunidade? Caso positivo, por que motivo e de qual comunidade?

Na década de 1930, em que nasci, éramos um país do futuro. A meu ver, continuamos a ser. O que leva, porém,  muita gente a pensar o contrário? Será que estamos sofrendo, como um País periférico, as dores do deretimento do modo de vida ocidental ao nosso redor? Estamos agindo como aquelas pequenas damas da aristocracia que choravam a decadência do reinado de Luis XVI como tão bem retratado no filme de Ettore Scola “Casanova e a Revolução”? Talvez.

A minha geração foi chamada, numa época, Geração Coca-Cola, expressando o fascínio que sobre nós exerceu o soft-power norte-americano com o seu jazz e filmes encantadores, impressão que passamos a nossos filhos e netos. Além disso, tivemos um Golpe de Estado em 1964, promovido pelos norte-amercianos, que mudou o curso da nossa História, e continua a inspirar os bolsonaristas atuais. É possível, portanto, que estejamos vivendo a decadência do mundo que tanto nos inspirou e queríamos imitar. A ideia de um futuro liderado pela China comunista nos assusta e ameaça. Pode ser por isso que muitos de nós tenhamos nos transformado em pequenos fascistas de imitação….


1 comentário até agora

  1. letacio junho 24, 2023 2:50 pm

    O título original do filme franco-italiano de 1992 é La Nuit de Varennes.

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