QUATRO CRÔNICAS – por Ana Miranda

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Comida do Amanhã

 Estou me despedindo das comidinhas deliciosas e orgânicas de Amsterdã. Queijo do leite de cabra e feno grego, um chocolate artesanal com amêndoas, manteiga batida à mão, cogumelos de mil tipos, espinafres com folhas do tamanho de um pires, mostarda antiga, suco de romã… Vou sentir saudades do babaganuche comprado no marroquino, da torta de maçã do Winkel, que dizem ser a melhor do mundo, até o Clinton vinha aqui em um cortejo de carros pretos, saborear a iguaria.

Saudades dos pratos exóticos do Suriname, da Indonésia… do nosso pequenino restaurante indiano e das sopas japonesas. Dos docinhos baklava… Dos poffertjes, umas panquequinhas cobertas de manteiga e açúcar. Quantos pecados! Como com prazer, como doces, pães, porém, acontece um milagre: emagreço. Acho que de tanto caminhar e subir e descer escadas. A vida holandesa exige forma física. Longas caminhadas depois de longas caminhadas. Nossa amiga escritora caminha todos os dias sete quilômetros pela floresta. Passeio lindo, e fui, acabei conseguindo.

A Holanda é o único país da União Europeia em que as taxas de obesidade não estão aumentando. Mesmo os holandeses gostando tanto de batatas fritas com maionese e salsichão com chucrute em um pão branco (confesso, provei, e é delicioso). Todos os países da União Europeia terão mais obesos nos próximos anos, com todos os problemas que isso representa. Nos Estados Unidos já quase a metade da população está obesa. No Brasil, mais da metade das pessoas está com excesso de peso (e tantos passando fome). China, Índia, Rússia, México, Egito, Alemanha… cada vez mais obesos.

A humanidade está ficando obesa e doente devido à má alimentação (quando não passa fome e é desnutrida), afirma o instituto Comida do Amanhã. Depois de anos lendo as embalagens, cuidando (inutilmente) para não aumentar o peso do corpo, soube que o vilão da obesidade não é mais a caloria: é a presença cada vez maior de elementos estranhos à natureza e à cozinha caseira. Eles causam ânsias de comer, e desastres na flora intestinal. Os vilões são: espessantes, acidulantes, aromatizantes, antiespumantes, flavorizantes, corantes… Os rótulos contêm nomes que parecem de vampiros: nitrato, sulfito, parabeno, fosfolipídio, dietilpirocarbônico. Chá de alho? Melhor fugir.

As comidinhas de casa em Icapuí também são de dar saudades. Pães do Leleu, favos de mel, castanhas torradas no quintal, lagostas que o Bel traz da pescaria, a peixada de Nenê com uma farofa inacreditável, a tapioca da Saúde, que parece renda… E temos às quintas o caminhãozinho do Libé que traz ao nosso portão colheitas dos assentados do Incra, orgânicas: banana, mamão, graviola, manga, pimentão, tomate, maracujá… Os industriais, como azeite, leite de castanha, ou arroz integral, compramos no mercantil. Aprendi a cozinhar, e tenho feito uns pratos deliciosos, como um salmão com purê de manga. E ganho sempre uns doces maravilhosos: um de cascas de laranja da terra, cocadas feitas com rapadura, ou doce de leite coalhado. Quantos pecados! Sete quilômetros de caminhadas. A areia da praia espera por meus pés.

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Sorvete sem terra

No começo do ano fomos visitar uma cajarela no assentamento do Incra. Criada com a enxertia de cajarana e seriguela, a árvore estava carregada de frutos amarelo-vermelhos, imagem edênica! O assentamento fica perto da Redonda de Icapuí, e para quem vê de fora tem o aspecto árido, empoeirado, vermelho, com muitos cajueiros anões, pouco apoio para plantios, pouca semente, pouca irrigação, pouco adubo… uma igrejinha, uma escola, uma vida de luta, mas cheia de honradez. Os lavradores têm terra onde viver e plantar.

Fomos colher as frutas, a convite; enchemos duas cestas e ainda havia mais cajarelas nos galhos e no chão. O assentado nos ofereceu uma muda, quando chegasse o tempo das chuvas. Chegou, recebi o galho, plantei-o perto da cerca e agora, voltando para casa, estou ansiosa para saber se pegou.

Quem trouxe o galho de cajarela foi Libé, um dos assentados. Há muitos assentamentos por aqui: São Francisco, para onde sempre mandamos brinquedos e roupas; Barreiras da Sereia, Manibu, Mutamba, Cajuais, Córrego do Sal… mesmo um onde moramos. Libé, já falei nele, vem às quintas com sua picape repleta de vegetais frescos, bate palmas, e saímos com uma cesta que vamos enchendo de produtos da agricultura. Por vezes ele traz um pote de favo de mel cristalino. Tudo orgânico e em conta. Às vezes ele compra maçãs, uvas, laranjas em Cacimba Funda, um pouco distante, mas a maioria é dos assentamentos locais. Gosto dos programas que distribuem terras aos sem-terra. Gosto do MST.

Tenho entendido melhor sua existência. O MST é o maior produtor de arroz orgânico no país, e produz soja não transgênica. Outro dia, fui a um estande comprar seus produtos. Eles fazem um queijo de coalho alvo como a lua cheia, acho que o melhor de todos que comi. A tapioca, os iogurtes, tudo bem feito demais; feijão Raízes da Terra, Café da Cecília… O MST precisa ser compreendido, apoiado e amado pela população brasileira. A nossa Constituição diz que os camponeses têm direito à terra, e determina uma reforma agrária. Não é justo que tantas pessoas sofram e não tenham vida digna, apenas porque uma minoria quer se abarrotar de dinheiro e de terras sem função social. Um País paga caro pela pobreza do povo.

A prática de apropriação do MST foi definida como ocupação pelo STJ que, em acórdão, escreveu que não pode ser considerado esbulhador do direito penal aquele que ocupa terra para fazer cumprir a promessa constitucional da reforma agrária, disse o professor da UnB, José Geraldo, no inquérito sobre o MST. O movimento assentou milhares de famílias em quase todos os estados e é bem organizado, com apoio da Igreja, de organizações internacionais como a Via Campesina, que apoia camponeses em todo o mundo. Seus produtos estão chegando a mercados, quitandas, mercearias, lojas e feiras. Novas ideias, novas árvores, novos tempos.

Fiquei sabendo que o chef sorveteiro Francisco Sant’Ana criou a primeira sorveteria de movimento popular, a Gelado do Campo; e levou para uma feira de pâtisserie em Paris sorvetes feitos com frutas orgânicas do MST, com imenso sucesso. Cupuaçu, cajá, manga, uvaia, jabuticaba…

3

Os squatters

Voltei para casa com a sensação de uma abelha que voa, voa e pousa numa flor. Na estrada, vim pensando nos squatters. Não que minha cabeça ainda esteja na Holanda, mas porque em Fortaleza conversei com uma amiga sobre os sem-teto que ocuparam um prediozinho amarelo em São Paulo. Eu vi squatters. Estava à janela, em Amsterdã, quando veio pela rua uma estranha procissão de pessoas vestidas como coelhos, cachorros de pelúcia, ou cobertas por lençóis, levando velas acesas e faixas com frases, algo como “Morar é um direito humano”.

Entraram em um dos edifícios de nossa rua, desabitado, e o ocuparam. Os squatters acreditam que a propriedade está sob responsabilidade social. Se você possui uma casa e mora ali, ela tem função e é inviolável; se você é proprietário de um prédio e aluga os apartamentos, há função de moradia, é inviolável. Você é dono de uma fazenda, planta, cria, ou é área de reserva ambiental, ela tem função e é inviolável.

Em Amsterdã, desde o final da Segunda Guerra muitos prédios estavam vazios, sobretudo os que haviam pertencido a judeus mortos em campos nazistas. Empresas e pessoas sem escrúpulos compravam esses prédios e os mantinham fechados, para especular. E desde a Grande Depressão dos anos 1930, os desempregados não podiam pagar aluguel. Muita gente não tinha onde morar.

Nos anos 50 começaram as ocupações. Os squatters pintavam de branco as portas de prédios vazios, sinalizando. Famílias entravam, punham cama, mesa e cadeira, o que por lei significava morar; instalavam luz, água, limpavam, reparavam. Lugares eram ocupados para atividades de arte e cultura. Outros, transformados em hortas de guerrilha. Faziam ocupações para conservar prédios monumentais. Ocuparam um forte militar e propriedades no campo. Com apoio da população. E abriam processos para obter posse ou compra. Houve lutas, tanques de guerra contra carrinhos de mercado cheios de objetos pesados… e muitas vitórias. Era um movimento mais amplo que de moradia.

Muitas vezes passei pela praça Spui, no centro de Amsterdã, o ponto de encontro do movimento Provo, de Provocatie, Provocação. Nos anos 1960 eles ergueram bandeiras por bicicletas como transporte, carros elétricos compartilhados; pela permissão do uso de drogas, taxação para os que poluíam; zombavam de valores consumistas e burgueses, e da monarquia Orange… rebelavam-se com trotes na polícia, que prendia pessoas portando o que na verdade era orégano, ou traficantes com comida de gato; escreviam frases engraçadas nos outdoors, lutavam contra o tabagismo… “Para dar caça a uns consumidores de erva, agentes da polícia, notórios consumidores de nicotina, efetuam incursões-surpresa que depois são divulgadas em artigos escritos por jornalistas alcoolizados e lidos por um público que, por sua vez, é escravo da televisão ou da nicotina”, disparava Jasper Grootveld, um dos fundadores do movimento. As ocupações criaram uma mentalidade; a prefeitura, nos anos 80, comprou duzentos prédios para moradias sociais. Os “Planos Brancos” dos Provos e as ocupações foram soluções antecipadas a problemas atuais das cidades.

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O jazz do oceano

Escrevo aqui à noite, com o silêncio de ventos e ondas, os raios da superlua dos Cervos clareando a paisagem. Que lua imensa e linda! Que mar prateado e infinito. Acabo de ler que partiu ao azul dos oceanos a alma de Roger Payne, biólogo que deu um presente maravilhoso para a humanidade: o canto das baleias. Certo dia ele ouviu no rádio que havia uma baleia encalhada na praia Revere, perto da universidade onde trabalhava, e foi olhar. Desolado, viu que uma pessoa havia escrito com faca iniciais no dorso do animal, e outra pusera um charuto em seu respirador. Desde aquele momento dedicou a vida às baleias.

Ele soube, em 1966, que um engenheiro naval que trabalhava nas Bermudas para a Marinha americana captando submarinos russos, com altamente secretos hidrofones, gravara anos antes estranhos gemidos e sons de lamentos. Pediu cópia das gravações e estudou-as. Eram “rios de sons exuberantes e ininterruptos” de baleias-jubarte.

Dessa descoberta nasceu um disco impressionante, conhecido em todo o mundo: Songs of The Humpback Whale. Quem ouvir esse disco jamais o esquecerá, tal o mistério, a variação, a complexidade e a beleza dessas sonatas com refrãos, desses improvisos de jazz & blues. Tristes, sublimes, arrebatadores. O disco gerou um movimento que conseguiu proibir a caça às baleias em todo o mundo. Payne tornou-se um dos maiores conhecedores dessas rainhas do mar, observando suas migrações, modo de vida, cantos e, decerto, seus sentimentos.

Elas são seres inteligentes, possuem tradição e cultura; brincam, sorriem, dão nomes a indivíduos, aprendem e ensinam, educam os filhos, choram e velam seus mortos, organizam-se em famílias, fazem gestos de gentileza e solidariedade, amam intensamente. Viajam em grupos pelas imensidões, para a festa dos nascimentos. E cada população tem um canto diferente. Belugas são os “canários do mar” com infinitos assovios, estalidos e vibrações. As baleias da Groenlândia emitem sons tão variados quanto pássaros canoros. Algumas têm o “canto de alimentação”, antes da caça; ou os cantos reconfortantes para bebês. Cantos de jubartes machos são temas de sedução, ao viajarem acompanhando fêmeas até os santuários de amor. Baleias criam sons também ao bater a cauda na água, com o atrito de seus dentes, ao golpear com a mandíbula ou as barbatanas. Usam sons para escolher o parceiro amoroso, para a localização, navegação, para sentir a profundidade, chamar, avisar de perigos, detectar tamanho e natureza de volumes, para orientação, expressar sentimentos… para elas, o som é vida, amor.

Li que a inteligência artificial está prestes a traduzir esses cantos, parece que não vai demorar e saberemos compreender o que dizem os animais. Porém, o que me deixou mais alarmada foi saber que o barulho crescente dos navios, sonares de barcos, submarinos, o estrondo das bombas de ar comprimido usadas para mapear o oceano e buscar petróleo, podem causar a morte gradual ou imediata de baleias e de muitos outros seres marinhos. Há pessoas admiráveis, como Payne; mas a humanidade está sempre escrevendo com faca sua caligrafia de destruição.


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