AMORES IDÍLICOS – por Ana Miranda

Estamos esperando com saudades a volta de Barbara. Ela vem, como sempre, trazendo a Mathilda e o Theo, os dois pequenos cães adotados. Graciosos, temperamentais, bem-educados, com lembranças de sofrimentos e uma adquirida autoestima, fazem parte da família. São peludos, fofos, irresistíveis. O Theo deita e se abre para receber carinhos no coração, Mathilda se recosta aos nossos pés, põe as patinhas em nossos joelhos e nos lança olhares expressivos, como se falassem. Os dois agitam o rabo com alegria, correm pela casa, brincam com os brinquedos espalhados na sala, dão vida a toda aquela família.

Quando vamos com Barbara caminhar no calçadão da Beira Mar, Mathilda e Theo em uma correia dupla seguem juntinhos, dão passos curtos no mesmo ritmo; cada pessoa que passa, olha, diz algo, se encanta, algumas param e se abaixam a fim de acariciar os bichinhos, conversam com Barbara, que assim ficou amiga de quase todos os habitués do calçadão. Dá para perceber os coraçõezinhos rodando entre Barbara e seus perfilhados, e o amor que circula entre eles. Mesmo eu, que sou mais apaixonada por gatos do que por cachorros, me derreto com a Mathilda e o Theo.

“Nenhum ser humano pode oferecer a outro o idílio. Só o animal pode fazê-lo, porque não foi expulso do Paraíso. O amor entre o homem e o cão é idílico. É um amor sem conflitos, sem cenas dramáticas, sem evolução”, disse Milan Kundera. Amor repleto de ternura e delicadeza. Lealdade. Tenho visto muito mais pessoas em amores idílicos com cachorros bem diferentes, uns peludos e de olhos azuis, outros de pelos anelados e fita na cabeça… Não sei se foi a solidão dos apartamentos, ou uma nova mentalidade que fez crescer tanto o número de pessoas com animais de estimação. E que os recebem como membros da família. Não apenas cães e gatos.

O menino Heitor, de grandes olhos verdes, tem uma cacatua inseparável. Um vizinho tem jabotis. Famílias adotam iguanas, coelhos, ou o miniporco tão inteligente que entende como funciona um espelho. A irmã de um amigo, no Recife, tinha duas jiboias em casa, que se enroscavam em suas pernas e braços. Na Califórnia, costumam criar tarântulas. As dóceis capivaras estão sendo acolhidas, lembro a Filó, adotada por um influencer. Camaleões, salamandras, periquitos, chinchilas, marrecos, cisnes negros…

Não ficam mais na porta da cozinha, comendo restos. Os bichos sobem no sofá, deitam nos tapetes, passeiam de carro olhando pela janela, dormem aos nossos pés na cama, falam conosco de maneira instintiva, a convivência é intensa. Eles transbordam amor por seus parentes que se derramam de carinho em troca. Filhotes nascem com o sobrenome da família registrado em cartório: tipo Ricota Miranda Sande. Alguns recebem herança e direitos autorais, como foi com as “meninas” Suzy e Pilara, cadelinhas amadas da escritora Nélida Piñon. Famílias fazem festa de aniversário para o cão. Há livros e leis. Casais divorciados brigam na justiça pela guarda do bicho… São novas famílias que surgem, e têm nome: famílias multiespécies. Acho excelentes as famílias assim, sem restrições antropocêntricas.

ANA MIRANDA – Transcrito do site do Jornal O Povo de 5 de agosto de 2023


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