MUNDO NÔMADE – por Ana Miranda

Estou de mudança. Vou morar no Polo Norte. Talvez em Nuuk, capital da Groenlândia. Já comecei a arrumar as malas: biquínis, maiôs, camisetas leves, bermudas, chapéus de palha, chinelinhas flip-flop… um guarda-sol e um abano indígena. Tive essa ideia ao ler um artigo sobre o livro “Século nômade”, da jornalista científica britânica Gaia Vince, que vê o futuro com mais profundidade que seus contemporâneos. Ela diz que, como a Terra está deveras aquecendo rapidamente, pessoas vão procurar abrigo nos lugares hoje gelados. Em uns trinta anos o Alasca, por exemplo, terá um clima semelhante ao da Flórida. E a Flórida será um imenso deserto movido a gás carbônico.

O mundo com mais quatro graus de calor será irreconhecível, diz Gaia. Tudo já começou. Os animais morrendo, a vida marinha sufocada, recifes de coral desaparecendo, o nível do mar subindo, o gelo derretendo, inundações, grande parte do planeta tornando-se um ermo inabitável. Secas e tempestades extremas. Ondas de calor mortais, quentura oceânica, chuvas ácidas. Incêndios, escassez de alimentos e água… O Ártico está ficando verde, diz a pensadora. Em pouco, será lugar para plantio de alimentos.

Ela calcula que até o ano de 2050 um bilhão e meio de pessoas terá imigrado para lugares como a região dos Grandes Lagos no Canadá e Estados Unidos, ou Boston que fica distante do calor extremo esperado, e Alasca. Também Patagônia, Groenlândia, Canadá, Sibéria e outras partes da Rússia, Islândia, os países escandinavos e a Escócia vão receber milhões de fugitivos da destruição do clima. São os Refugiados Climáticos. Montanhas Rochosas, Alpes… Irlanda, Estônia, serão tomadas de imigrantes, assim como cidades que ficam a grande altitude, como Carcassone, na França, cercada de rios. Para acolher essa população nômade, novas cidades terão de ser construídas, com renovada visão de sobrevivência e respeito ao clima.

Aqui no hemisfério Sul, Patagônia, Tasmânia e Nova Zelândia, e a costa oeste da Antártida, terão clima agradável para as grandes imigrações do porvir. Mas muitas pessoas já estão se mudando. Habitantes de Newtok, no Alasca, já se transferem para novo local devido ao derretimento do permafrost e à erosão, que destruíram parte de sua aldeia. Permafrost é aquela camada subterrânea sempre congelada. A migração para Boulder e Denver já começou, são cidades acima de cinco mil metros de altitude. A jornalista imagina que a geografia política vai mudar: fronteiras diferentes, países desaparecendo, ou se fundindo em entidades regionais, mudança do conceito de cidadania, ideais antirracistas, culturas abertas, fusão de línguas… a era dos combustíveis fósseis está chegando ao fim.

Lembrei de uma amiga que mora em Ushuaia, no arquipélago da Terra do Fogo, diante de uma baía profunda e azulíssima, a cidade mais austral do continente e por isso chamada de fim do mundo. Auroras boreais, carneiros, glaciares, cachoeiras, lagos secretos, as vermelhas flores do notro… Ainda há invernos severos, ventos gelados, o horizonte com montanhas andinas cobertas de neve…  Pode ser o começo de um novo mundo.

ANA MIRANDA, extraído do site do jornal “O Povo” de 19 de agosto de 2023


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