AS MUITAS IDADES – por Ana Miranda

Semana passada completei mais um ano de vida, e cheguei à soma de setenta e dois anos, uns vinte e seis mil dias, conforme nosso calendário gregoriano. Mas acho um pouco irreal pensar que tenho essa idade, pois me sinto ao mesmo tempo uma criança de quatro anos, uma moça de dezenove anos e uma pessoa com mais de quinhentos anos. Lembranças desses tempos chamejam dentro de mim e me conduzem, assim como a memória de todos os seres que me antecederam. Cada dia, uma vida. Tudo isso conta na minha idade.

Se eu considerar o calendário judaico, meu aniversário será em dois de setembro e eu estarei no ano cinco mil setecentos e tantos, porque o calendário judaico começa a contar do nascimento do primeiro ser humano, que foi Adão. Pelo calendário muçulmano, que é lunar, eu teria talvez a idade das luas que já vi passar no céu, eu que sempre contemplo as faces da Lua. Pelo calendário lunissolar chinês, que diz estarmos no ano de quatro mil setecentos e tantos, no qual o ano tem treze meses, eu seria bem mais novinha.

Li, dia destes, um artigo sobre as idades do nosso ser e me dividi em ainda outras lascas temporais. Tenho a idade cronológica, do tempo que vivi desde o nascimento e vai até a finitude. A minha idade biológica, relativa ao sistema do corpo, essa depende de tudo o que sou e o que vivi, como vivi, o que senti, vi, respirei, dormi, quanto sol tomei… o quanto me movi e, sobretudo, o que comi e bebi. E tenho a idade psicológica, que se relaciona com as capacidades de aprender, memorizar, perceber, sentir e controlar, ou não, as emoções. Ela depende do que sinto em cada momento, quando estou com a energia de uma adolescente ou fatigada como uma senhora longeva. Por vezes, caminho pensando ser uma menina de treze anos, e se passo em frente a um espelho, me surpreendo.

Tenho a idade social, que se refere ao meu lugar entre as pessoas, à linguagem, profissão, aos hábitos. Deve ser boa, porque não parei de trabalhar, criar, produzir, fazer amigos e sonhar. Tenho, ainda, a quadra sideral baseada na existência dos astros, como o planeta Vênus. Vem do calendário maia das treze luas, o mais harmonioso; treze luas de vinte e oito dias. A chave do calendário maia, a tzolkin, em que o ano dura apenas duzentos e sessenta dias, tem treze meses de vinte dias. Reflexo de minhas emoções e modo de me comportar no mundo, tudo conta na idade. E há, ainda, as diferentes fases das partes de meu corpo: os cabelos, o coração, os joelhos… Assim, com tantas contagens, fico sem saber. Mas sempre me senti muito mais velha do que as minhas idades. Nasci velhíssima.

Gosto de dizer que sou a mais velha de todos os escritores, pois tenho quinhentos anos. Vivi nos séculos 21 e 20, também nos anteriores, séculos dezenove, dezoito, dezessete e dezesseis. Porque vivi nestes tempos arcaicos, em minha imaginação, ao escrever livros que ali se passam. Minha personagem mais antiga, a Oribela, terá nascido em Portugal, em 1541. Como vivi a vida de Oribela… Há apenas um escritor mais velho do que eu, um poeta, imbatível em idade, pois escreve sobre a origem do Universo.

ANA MIRANDA, transcrito do site do Jornal O Povo de 26 de agosto de 2023


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