VIVA O QUÊNIA! – por Ana Miranda

O Quênia decretou feriado nacional para seu povo plantar cem milhões de árvores. Cada queniano foi estimulado a cultivar ao menos duas, naquele dia. Centros de agências florestais ofereceram as mudas, que deviam ser plantadas em locais indicados. Mas as pessoas também poderiam comprar renovos para semear em suas casas. A intenção é dar vida a quinhentos milhões de árvores até o fim das chuvas em dezembro, e chegar a 15 bilhões de árvores em dez anos. Imagino todas aquelas regiões desérticas cheias de verde, água, animais… Uma verdadeira riqueza.

Amor pelo planeta, mais água nas nascentes, fim dos grandes alagamentos, temperatura mais fresca, mais sombra, ar puro… declaram moradores seus motivos para participar da função. Os quenianos têm uma história de afeto pelas árvores, a primeira africana a receber o Nobel da Paz foi uma ambientalista queniana, Wangari Maathai, criadora do movimento Cinturão Verde que distribuiu sementes a mulheres, e assim foram semeadas mais de quarenta e sete milhões de árvores. Maathai lutou pela natureza, pela democracia, pela paz. E pelas mulheres, que lá passam por sofrimentos pungentes, como o ritual dos povos Luo de purificação das viúvas que devem servir sexualmente a um desconhecido. As árvores das mulheres de Maathai já têm mais de cinquenta anos, devem estar frondosas, orgulhosas de sua origem.

Fiquei com vontade de olhar o Quênia. Vi fotografias de suas praias com as águas azulíssimas do oceano Índico, as savanas, os imensos lagos, as paisagens repletas de elefantes, leões, rinocerontes… Vi fotos de baobás majestosos, de mulheres vestidas como princesas negras… fiquei vagando por lá, olhava de longe o Kilimanjaro coberto por neve, com uma xícara de chá na mão, cercada de flores frescas, enquanto gnus-azuis migravam em manadas à luz da Lua, com seus chifres entre parênteses. Lá estava eu, e também, pensando nas árvores que plantei.

A primeira foi um flamboyant, em Brasília. Eu era uma menina de uns sete anos, quando foram ajardinar as quadras; furaram as covas, dias depois deixaram mudas deitadas ao lado das covas, mas ninguém apareceu para plantá-las. Vi que as mudas estavam murchando, e plantei eu mesma a mudinha comprida e delicada ao lado de minha casa. Aguava todos os dias. O flamboyant cresceu lindíssimo, ficou muito mais alto que eu, que meus pais, que a casa, e florescia com fulgor, como se incendiado; suas vagens estalavam e chacoalhavam, musicais. Sempre que eu voltava a Brasília, ia visitar o flamboyant, conversava com ele, até que um amigo me deu a notícia que me fez em lágrimas: havia sido cortado. Tenho, hoje, dois plantados em frente à varanda de minha nova casa cearense. Plantei árvores no terreno de minha antiga casa na Prainha, visito-as, e lá estão elas, imensas, dando flores, frutos: acerolas, seriguelas, atas, romãs… e em nosso terreno na praia, lutam para crescer uma mangueira moscatel de lindas folhas pontudas, uma figueira, uma bananeira, e pés de acerola, tangerina, pitanga, jabuticaba, um limoeiro e um limoeiro siciliano. Ainda sonho plantar mais e mais e mais…

ANA MIRANDA, O Povo, 2 de dezembro de 2023


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