VINHO DE AÇAÍ – por Ana Miranda

Nos tristes e escuros anos da tirania, um jovem casal de fugitivos atravessou a Amazônia por matas, rios, picadas. Sem documentos nem dinheiro iam a pé, de barco, caminhão, ônibus, com forças da repressão ao seu encalço. João e Janete Capiberibe, com uma filha recém-nascida, foram viver exilados entre a Bolívia, o Peru e o Chile. A saga está contada no fascinante livro de memórias, “Florestas do meu exílio”. Eles conviveram com ribeirinhos, indígenas, caminhoneiros, trabalhadores, artesãos, camponeses, com a realidade dessa nossa gente; testemunharam a devastação da mata. Sentiram ao mesmo tempo a grande força do povo e da floresta. Descobriram a alma da América Latina.

Mas o que me recorda, neste momento, são os anos que eles passaram no Chile, “longa pétala de mar, vinho e neve” como diz o poema de Neruda. Viveram em um vinhedo na comunidade de Camarico, no pueblo de San Rafael, província de Talca, Vale Central do Chile. A comuna naqueles dias não tinha muitos habitantes, quase todos agricultores, gente simples e sábia. O vinhedo pertencia à cooperativa El Esfuerzo da Reforma agrária que Allende realizava. Eram 55 hectares de videiras e ali o casal aprendeu a fazer podas, semear as frutas negras ou verdes… A arte de plantar uvas.

E a arte de preparar vinho artesanal. Amarravam uma barra em cima, punham uvas dentro de um tonel e as esmagavam com os pés, como nos modos mais antigos. Nos fins de semana, João jogava futebol com os assentados. E o casal ganhava ao menos umas cinco garrafas de bom vinho. Aprenderam a tomar esse néctar, a conhecer-lhe as qualidades. Mudaram depois para um vinhedo na comuna Puríssima, também na província de Talca, a poucos passos da deslumbrante Cordilheira dos Andes.

Essas lembranças retornam agora, como o espírito que liberta a cor, o tanino, os aromas das peles, e depois de uma vida dedicada à política com toda a integridade e sofrimento, o casal voltou para o Amapá. E em sua casa, no quintal, começou a produzir vinho, da vinícola Flor da Sumaúma. Porém, vinho de açaí, de acordo com as pioneiras ideias de sustentabilidade apregoadas durante anos por Janete e João Capiberibe. São tipos diferentes do vinho de açaí, com nomes sugestivos, como Mãe do Mundo, ou Flor da Amazônia. As sementes de açaí são retiradas do sítio dos Capiberibe às margens do rio Curiaú. Ali é feito o processamento da fruta: lavagem, amolecimento, e batedeira para extrair a polpa. O mosto é remetido para fermentação na residência do casal.

Tomei duas garrafas do vinho de açaí, adorei. Surpreendente, delicioso: o Flor da Sumaúma lembra frutas verdes, açaí e folhas da natureza amazônica, com sabores que demoram na boca, leves tons doces. O Curiaú sugere frutas roxas, algo de apaixonado, violetas, nem sei descrever como um sommelier. A ex-deputada nascida em Macapá, protetora das parteiras da floresta e o ex-governador e senador, nascido em Afuá, ilha de Marajó, que cresceu às margens do Xarapucu, voltam à natureza, com imensa e merecida felicidade. Este Natal vamos brindar à floresta Amazônica com um vinho de açaí da Flor de Sumaúma.

ANA MIRANDA, O Povo, 16 de dezembro de 2023

 


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