A BALA DE PRATA CONTRA AS INVASÕES BÁRBARAS DO OCIDENTE: DESDOLARIZAÇÃO DO SISTEMA INTERNACIONAL – por Maurício Metri

Em 13 de fevereiro de 2024, o Senado dos Estados Unidos aprovou um pacote de auxilio de 95 bilhões de dólares para a Ucrânia, Taiwan e Israel. Segundo o banco de dados do FMI, este pacote representa uma quantia maior do que as reservas internacionais, denominadas em dólar, de 165 países. Em outras palavras, dos 194 países com reservas em dólar, apenas 29 têm volumes maiores do que o valor do pacote do Senado norte-americano. Este fato dá uma ideia da extravagância dessa contribuição.

Essas notícias, veiculadas com algo natural, revelam dois fatos importante. Primeiro, demonstra a extraordinária e desproporcional capacidade financeira e de despeas dos Estados Unidos, utilizada, dentre outros objetivos, para melhorar os armamentos de seus aliados em fronteiras estratégicas, a promoção de conflitos por procuração em regiões com fraturas geopolíticas, e, de uma perspectiva de longo prazo, a execução de uma ininterrupta cronologia de guerras e intervenções militares desde 1991. Ademais, esta capacidade financeira e de efetuar gastos também dá apoio a uma ampla estrutura de alcance mundial com aproximadamente 750 bases militares fora do território nacional[1].

Olhando a capacidade financeira e de efetuar despesas dos Estados Unidos, seguem abaixo algumas breves observações, discutidas com maior profundidade em outras ocasiões[2}. A posição do dólar americano na hierarquia monetária internacional e a forma como a economia mundial começou a funcionar depois da Guerra-Fria permitiram que os USA impusessem o peso da sua violência sobre o mundo, principalmente por causa do papel que a dívida pública desempenha no jogo econômico internacional. É um sistema de extorsão porque, enquanto o mundo acumula, sem limite aparente, títulos do Tesouro americano, Washington põe em prática uma agenda de guerras e de ações militares. O nível de endividamento do governo federal americano, comparável àqueles períodos de significativo esforço de guerra, quando medido como uma percentagem do PIB, já alcançou, por exemplo, nível semelhante aos da Segunda Guerra Mundial.

Estas vantagens ocorrem porque a absorção de títulos emitidos pelos Estados Unidos tornou-se uma política necessária para que outros Estados atuem nos mercados cambiais em defesa das suas moedas e, assim, protejam, no limite, a sua autonomia sobre os instrumentos de política econômica. Tudo é igual para os agentes privados, pois ter títulos do Tesouro dos EUA nas suas carteiras é imperativo para lidar com os elevados riscos de um sistema intrinsecamente instável. Esta situação é o cerne do poder monetário dos Estados Unidos, muito mais estratégico do que o próprio poder das sanções financeiras, cujas bases são também a posição do dólar no sistema internacional amplamente utilizada por Washington contra os alvos da sua política externa.

O segundo fato relacionado com as notícias sobre um pacote de ajuda à Ucrânia, Taiwan e Israel diz respeito aos objetivos dos Estados Unidos. A prioridade não são, exatamente, Kiev, Taipei ou Tel-Aviv em si, mas o papel que desempenham para Washington nas regiões onde se encontram. A extraordinária aplicação de recursos revela, na prática, os alvos prioritários da Casa Branca, nomeadamente Moscou, Pequim e Teerã. Estes estão presentes há muito tempo em diferentes formulações da Estratégia de Segurança Nacional e nos documentos de política externa de Washington.

O ponto central é que o Atlântico Norte, principalmente os Estados Unidos, já foi superado pela Rússia no desenvolvimento de armas estratégicas,  especialmente as hipersônicas. Esse novo desenvolvimento representa uma revolução na arte da guerra, que, na essência, ainda não foi inteiramente compreendida pelo Ocidente. Por outro lado, de um ponto-de-vista econômico, a China já é a maior Economia do mundo e correspondia, em 2023, a 18,82% do PIB mundial baseado na paridade de poder de compra, enquanto os Estados Unidos correspondiam, a 15,42%. Para tornar as coisas piores para o Ocidente, há mais de duas décadas, Pequim e Moscou desenvolveram e aprofundaram parcerias estratégicas em vários pontos sensíveis das relações internacionais: armas, tecnologia, energia, moeda, finanças, etc.

No Sudoeste da Ásia, o cenário também não é muito favorável aos EUA. O Iran, seu principal adversário regional, assumiu, ao longo da última década, uma posição chave ao articular uma série de forças de resistência à política dos Estados Unidos nessa área. Além disso, o Iran foi capaz de resistir a pesadas sanções e desenvolver uma capacidade essencial para iniciativas estratégicas. Ademais, as relações com Pequim e Moscou avançaram significativamente. Três eventos recentes deram impulso a essas transformações. Em julho de 2023, 15 anos depois do primeiro convite, Iran juntou-se oficialmente à Organização da Cooperação de Xangai. Um mês depois, em agosto de 2023, a solicitação para associar-se aos BRICS foi formalizada, o que ocorreu, efetivamente, no início de 2024. Para fazer a região do Sudoeste da Ásia ainda mais complexa, a Arábia Saudita acompanhou o Iran, juntando-se aos BRICS. Acrescentando-se a isso, as relações diplomáticas entre Riad e Teerã, suspensas desde 2016, foram reassumidas em março de 2023, um mês antes do início do conflito em Gaza. Na concepção de Washington, Pequim mediou esse processo.

Frente a este quadro geral, o pacote de ajuda dos Estados Unidos à Ucrânia, Taiwan e Israel indica a vontade de Washington de continuar a apostar na instabilidade crescente de três regiões: a Europa, o Mar da China Meridional e o Sudoeste Asiático. Em última análise, pretende redesenhar esses delineamentos, reconfigurando as correlações de forças, tentando recriar fissuras entre países essenciais nessas regiões. Para isso, utiliza a crescente militarização, a promoção de rivalidades e a promoção e o financiamento de guerras. É preciso ficar atento porque, neste jogo, os Estados Unidos têm uma arma exclusiva: uma capacidade de financiamento e gasto desproporcional devido à hierarquia monetária internacional e à forma como a economia mundial começou a funcionar nas últimas décadas.

No caso do Mar da China Meridional, podemos observar a consolidação de um limite crítico devido ao nível alcançado pelo processo de militarização de Taiwan devido à pressão dos Estados Unidos, que também continua a fortalecer os seus dois cinturões de base militar bloqueando a saída da China para os mares. Ben Norton, editor do Relatório de Economia Geopolítica, descreveu isso: “Washington aprovou a perigosa venda do sistema de comunicações Link 16 para Taiwan. Esta aprovação é o elo final do que os militares dos EUA chamam de cadeia de morte de coalizão transnacional contra a China e sinaliza um compromisso com a guerra cibernética.” Diante de iniciativas como estas e a capacidade de resposta chinesa, os países da região reagem de forma contraditória, aquecendo velhas fissuras e antagonismos que de outra forma estariam congelados.

Contudo, o que tem acontecido na Europa e, sobretudo, na Faixa de Gaza é ainda mais surpreendente. No primeiro caso, os Estados Unidos insistem em prolongar o conflito na Ucrânia para aumentar o fosso entre o Ocidente e a Rússia, restaurando, em última análise, o cordão sanitário entre Berlim e Moscou, mesmo que, para fazer isso, imponham elevados custos económicos à Europa. Esta situação, aliás, explica a aparente contradição em persistir num contexto marcado por uma Ucrânia já derrotada e sem chances contra o poderoso exército russo. Contudo, Washington não procura exatamente uma vitória no campo de batalha; em vez disso, pretende defender o princípio da NATO desde a sua criação, há muito tempo: manter a Rússia fora da Europa, os EUA dentro e a Alemanha agachada. Deste ponto de vista, a guerra na Ucrânia serviu os propósitos da Casa Branca.

Os Estados Unidos parecem seguir uma lógica semelhante na Faixa de Gaza. Para alcançar objetivos geopolíticos mais amplos, apostam também na escalada de conflitos na região através do apoio e financiamento do genocídio israelense do povo palestiniano, que resiste há muito tempo a um Estado fortemente armado e estruturado num apartheid, colonial e regime racista. O que escapou a Washington foi que, devido à escala da violência, surgiram graves questionamentos no campo da ética internacional sobre as ações das Forças de Defesa de Israel. Face à desumanidade israelita, as autoridades do Atlântico Norte começaram a hesitar. Porém, já é tarde demais. Para o resto do mundo, se o Ocidente, ao qual Israel se liga, se autodenomina uma “civilização” e coloca os palestinos no campo da “barbárie”, é isso que a chamada “civilização” tem feito à “barbárie”: o bombardeamento e a execução diária de uma população civil desarmada e faminta, composta majoritariamente por mulheres e crianças; a utilização da fome e das doenças como armas de guerra para exterminar os palestinos, bloqueando alimentos e medicamentos; a destruição das infraestruturas de Gaza, incluindo o bombardeio deliberado de hospitais e escolas; e o assassinato daqueles que trabalham para ajudar as vítimas (médicos palestinos e funcionários de organizações internacionais) e de jornalistas que ousam revelar ao mundo os crimes de guerra de Israel.

Neste cenário de horrores inimagináveis, fica a impressão de que Washington aposta numa possível escalada contra Israel na região, como é o caso dos ataques Houthi no Mar Vermelho, cujas consequências têm o potencial de alimentar antigas divergências entre diferentes integrantes da região, como, por exemplo, entre a Arábia Saudita e o Iran. Não por outra razão, os EUA e a Inglaterra não perderam a oportunidade de bombardear rapidamente territórios no Iémen, dominados pelos Houthis. Este contexto explica, aliás, o cuidado com que o Iran se movimenta face a tal situação apesar de ter sido alvo de ataques terroristas. O Iran procura evitar uma escalada contra Israel, que possui armas nucleares, ao mesmo tempo em que não deixa de coordenar e apoiar diretamente diferentes forças na região, como os Houthis no Iémen, o Hamas em Gaza, o Hezbollah no Líbano e grupos armados no Iraque e na Síria.

Resumindo, não é difícil perceber que a energia que alimenta a máquina de violência dos Estados Unidos em diferentes partes do mundo (como a militarização no Mar da China Meridional, a guerra quente na Ucrânia, ou mesmo o genocídio na Gaza) provém de uma importante fonte de abastecimento: a capacidade desproporcional de financiamento e despesa dos Estados Unidos, derivada da posição da sua moeda na hierarquia monetária global e da forma como o sistema económico internacional tem funcionado desde o fim da Guerra Fria. Desta forma, o mundo, ao continuar a absorver, sem limite aparente, títulos da dívida pública americana, financia a violência perpetrada por Washington, por mais contraditório que isso possa parecer. Portanto, a desdolarização do sistema internacional tornou-se uma “bala de prata” para desmantelar uma parte essencial desta máquina de guerra sem confronto militar. Por esta razão, a desdolarização é urgente não só como um objetivo geopolítico de primeira ordem para o chamado Sul Global, mas também como um imperativo ético e humanitário contra as invasões bárbaras do Ocidente.

Referências

1) For more details, see: Vine, D. The United States of War: a global history of America’s endless conflicts, from Columbus to the Islamic State. Oakland: University of California Press, 2020.

2) For more details, see: Metri, M. História e Diplomacia Monetária. Editora Dialética, São Paulo, 2023.; Metri, M. The U.S. Monetary Power and the Struggles for International De- Dollarization. Global Research, mar. 2021; Metri, M. Geopolitics and monetary diplomacy: the global dollar system of taxation and the international economy’s de-dollarization initiatives. Economia e Sociedade , v. 29, n. 3, p. 719-36, dez. 2020.

3) For more details, see: Martyanov, A. Losing Military Supremacy: the Myopia of American Strategic Planning. Atlanta: Clarity Press, 2018.

MAURÍCIO METRI – Traduzido de: The Silver Bullet Against the Barbarian Invasions of the West: De-Dollarization of the International System, By Metri, M. In: Strategic Culture Foudation, 20 de março de 2024


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