A PEDRA DO CAMINHO ( uma resposta )

Ah, Drummond !  Aquela pedra

No seu caminho, Drummond,

Era eu, no seu caminho

Eu sou a pedra, Drummond !

Não estava ali sem motivo

Eu o tinha, e muito bom

Sou pedra, mas raciocino

Sou muito “viva” Drummond.

Tanto sou viva que, ontem,

Era só pedra; hoje estou

Quase imortal, e sou verso,

Meio maluco, mas sou.

Antes de ser pra você

Fui pedra pra muita gente

Mas era, pra cada um,

Uma pedra diferente.

Fui pedra de quebrar vidro

E de matar passarinho

Veja você o que fui antes

De ser pedra do caminho.

Fui pedra de virar lata

Fui pedra de atiradeira

Já quebrei muita cabeça,

Já fui cruel, traiçoeira.

Vivia desesperada

Abandonada, esquecida

Querendo mudar de sorte

Querendo mudar de vida.

Quando soube que existia

Morava perto de mim

Eu, então, pro seu caminho

Instantaneamente vim.

Lembrei-me da bruta sorte

De um corvo, com quem me dou

E é famoso por graça

Do Edgard Allan Poe

Pensei comigo: é poeta

Verá em mim qualquer coisa

Fiquei um pouco indecisa:

“ Vamos lá, ousa ou não ousa ?

Ousei enfim, dei-me bem

Pra glória fui arrastada

Você me tornou poema

Fez-me famosa e falada

E, sem mais, quero deixar-lhe

Minha afeição, meu carinho.

Respeitosamente sou

Sua “Pedra do Caminho”


POESIAS ESPARSAS ( 3 )

TEMOR

Tenho medo de ver-te e novamente
A chama que jurei manter extinta
Daquele amor volte a vier e sinta
Que é impossível esquecer-te, mais que eu tente

Receio a tua imagem, que ela ausente
Tentei manter de minha alma, e indistinta.
Temo ver-te; algo faz com que eu pressinta
Que te amarei de novo, fatalmente.


POESIAS ESPARSAS ( 2 )

PERPLEXÃO

Quem são essas graciosas criaturas
que estão, agora, por toda parte ?
Antigamente elas eram as nossas esposas, as
nossas amantes, as nossas namoradas.
Hoje são as nossas colegas, as nossas doutoras,
as nossas chefes…
O que fazer com elas, que são tantas, senão
admirá-las ?


POESIAS ESPARSAS ( 1 )

HESITAÇÃO

Quero dizer-lhe aquilo que eu não disse
Por não poder dizer, quando devia
Por não dever dizer, quando podia
E por temer você, que não me ouvisse…

Se eu, no momento exato, decidisse
E lhe dissesse, amor, o que eu sentia
Você, por certo, a mim me escutaria
E ao que dizer podia, mas não disse.

E eu arrependo de não ter lhe dito
O que eu diria se pensasse um pouco
Se o instante exato com noção medisse…

Mil vezes me atormento e sou maldito
E hoje maldigo com fervor de louco
O que dizer devia, e que não disse !